Em dois tempos

•25/07/2011 • 7 Comentários

Grávida. Logo ela, que nunca quis ter filhos. Não conseguia sequer se imaginar com aquele barrigão, aquele corpo inchado, aquelas dores, as náuseas, as noites sem dormir. Até imaginava, na verdade, mas nada do que via lhe parecia bom. Pegou um copo. Encheu de vodka. Precisava se acalmar. Sentiu calor, raiva, jogou o copo contra a parede.

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Segurava o bebê com apenas uma das mãos, ele parecia leve naquele dia. O sol estava alto, já devia ser mais de meio dia. Sentia o cheiro do suor tomando conta de seu corpo, mas não encontrava a casa dele. Pelo menos o bebê não chorava, pensou. Sentia o nariz e os olhos arderem, pela terra que levantava ao andar. Passou o braço pelo rosto, na tentativa inútil de limpar as gotas de suor que escorriam.

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Pensou nos remédios. Nos chás. Preferia qualquer coisa a ter que apelar pra faca. Ela nem sabia direito como seria isso. Faca? Será que eles usam algo que corta? Mas, também, era melhor não saber. Pra quê? Só pra ter que pensar ainda mais? Saiu de casa decidida. Comprou o remédio, uma garrafa de água e um chocolate. Se tudo desse certo, dormiria tranquila depois. Não esperou chegar em casa para engolir o comprimido. Num gole, tudo estava feito – ou, melhor, desfeito. Abriu o pacote do chocolate enquanto caminhava. Faltavam três quarteirões. Sentia o vento desarrumar seu cabelo. Olhou para a barriga e deixou o vento bater. Assim seria melhor. Guardou o último quadradinho do doce para depois. Sempre sentia vontade de comer algo à noite.

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O suor continuava incomodando, mas caminhou sem parar. Foi a tarde toda, com o bebê no colo. Ele não quis mamar, não chorou, não reclamou de nada. À noite, ao ver o pôr do sol, ela decidiu voltar pra casa. Andou até se lembrar do caminho, e chegou lá com os pés latejando. O cabelo estava grudado na testa, sentia calor. Girou a chave na fechadura, mas a porta não abriu. Tentou de novo. Mas não era ali.

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Não era exatamente uma cólica que ela sentia, era algo diferente. Só não conseguia se levantar da cama. Se retorceu até onde sua coluna foi capaz de dobrar e ficou ali sozinha, sabendo que não duraria muito. Já sentia o sangue escorrendo, mas não conseguia levantar a cabeça para ver. Bem, pelo menos não iria ver nada. A dor apertava o estômago, parecia subir pro peito, um refluxo amargo. Suava frio, fechou os olhos. Quando os abriu, viu o relógio bater dez horas. Era de manhã. Tinha dormido. Viu o sangue e se levantou. Era dia de trocar a roupa de cama.

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Sentou-se na calçada, para descansar. Onde estaria ele? Numa hora dessas ele já havia saído do trabalho e passaria por aquela mesma calçada. Que espera longa. Não aguentava mais segurar o bebê e pediu ajuda pra mulher que estava a seu lado, também sentada. Lembrava dela de algum lugar. A outra, virando-se para o lado, recusou-se a segurar o bebê. Jogou-o no chão. Quando é que você vai perceber que essa bosta aqui é só uma boneca velha? Ela mal ouviu o que a outra disse, e correu para pegar seu bebê do chão. Ele não chorou, nem reclamou de nada, nem quis mamar. Ela saiu andando e, de longe, xingou aquela vaca. Foi dormir do outro lado da rua.

Vários

•25/07/2011 • Deixe um comentário

Naquela noite, ele não dormiu. Acendeu o cigarro e tentou desenhar o rosto dela na fumaça. No primeiro esboço, sobrou uma lágrima. No segundo, não conseguiu definir a linha dos lábios dela. No terceiro, esqueceu como era seu olhar. Aproximou o cigarro da pele. Queria alguma lembrança que o tempo não apagasse. E deixou queimar.

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Abriu a carteira e olhou a foto envelhecida. Com cuidado, tirou-a do plástico e apertou-a junto ao peito por instantes. Colocou-a de volta no lugar e, sem perder mais tempo, levantou a pistola que escondia debaixo do moletom. Obrigou o segurança a fechar a porta atrás dele. Ele não queria dinheiro, só dignidade. E, para isso, precisava conseguir o pão pro jantar.

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Acordou decidida a escrever um conto. Pensou primeiro no assunto. Sobre o que escreveria? Tentou imaginar um belo romance, um crime passional, uma cidade inventada. Mas as ideias passavam longe. Foi até a padaria. Quem sabe um bom café da manhã ajuda? Não ajudou. Depois foi ao parque. Nada como o som dos pássaros para estimular a imaginação. Mas nenhum pássaro apareceu. Então voltou pra casa e se sentou na frente do computador. Desse jeito alguma coisa ia sair. Mas não saiu. Cansada de pensar em vão, foi dormir. Dormiu decidida a acordar e escrever um conto.

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Se conheceram por acaso. Ele, saindo do táxi. Ela, tentando não tropeçar na calçada esburacada. Ele olhou sorrindo. Ela, com pressa, levantou as sobrancelhas com ar de desdém. Ele caminhou, olhando para trás. Ela correu para dentro do prédio e pegou o elevador. Ele, ainda hoje, pensa naquele encontro sem palavras. Ela nunca chegou atrasada a uma reunião.

Pequenos encantamentos

•06/03/2011 • Deixe um comentário

Às vezes eu queria sentir, de novo, aquele encantamento próprio das crianças – com qualquer novidade. Para nós, adultos do século XXI, tudo parece tão fácil – ou tão normal – que o deslumbre poucas vezes tem lugar. Ou, quando ele dá as caras, parece despropositado…

Sobre escrever

•04/03/2011 • Deixe um comentário

* de Clarice Lispector

“Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador.”

Ironias

•23/02/2011 • Deixe um comentário

Já ouvi coisas muito bonitas e idealistas sobre o motivo pelo qual as pessoas escolhem uma carreira. Uns querem salvar o mundo, outros decidem pela profissão para ajudar um familiar doente, outros sonham com a ascensão financeira. No meu caso, decidi por impulso: quero o que for mais difícil. Explico: na época, lá nos anos 2000, eu estava em dúvida entre prestar História, Letras ou Jornalismo. Mas, para passar na faculdade das duas primeiras era fácil demais. Fiquei, então, com o jornalismo. No ano do meu vestibular, era a segunda carreira mais concorrida.

Faz dez anos que fiz aquela prova. E lembro que, quando entrei na faculdade, meu sonho era unir minhas três paixões: fazer um jornalismo que tivesse um quê de literatura e, além disso, participar dos momentos históricos, escrevendo sobre eles. Hoje, passados dez anos, eu me flagrei em um evento para lançamento de uma panela (!!!). Lá, foi inevitável pensar que legal mesmo seria estar na África, escrevendo sobre todas as ebulições que sacodem o continente nas últimas semanas. Apesar disso, no fundo, no fundo, percebi que o que eu gosto mesmo é de escrever. Não sobre panelas, claro, mas sobre quase qualquer coisa. Se der pra ser literário, melhor. Se der pra ser sobre uma experiência vivida, melhor ainda. Mas precisa ter papel e caneta – ou uma tela de computador.

Rir junto

•07/02/2011 • Deixe um comentário

*Mais do Mia Couto… Venenos de Deus, remédios do diabo

“Rir junto é melhor que falar a mesma língua. Ou talvez o riso seja uma língua anterior que fomos perdendo à medida que o mundo foi deixando de ser nosso.”

About you

•31/01/2011 • Deixe um comentário

Yesterday I saw the sun shining
And the leaves were falling down softly
My cold hands needed a warm, warm touch
And I was thinking about you

But here I am looking for signs to lead me
You hold my hand, but do you really need me
I guess it’s time for me to let you go
But I’ve been thinking about you
I’ve been thinking about you

So when you sail across the ocean waters
And you reach the other side safetly
Could you smile a little smile for me

‘Cuz I’ve been thinking about you
I’ve been thinking about you
I’ve been thinking about you
I’ve been thinking about you

Song:

*Thinking About You
Norah Jones

Combate à pobreza

•24/01/2011 • Deixe um comentário

- Quero um remédio, Doutor.
- Um remédio? Pode ser mais específico?
Não era, como pensou o clínico, um afrodisíaco. Solicitava um produto para a eliminação radical da transpiração. Não um desodorizante: um anulador definitivo de suores. Ele queria-se desglandular.
- O suor é um defeito dos pobres. E nós, meu caro Doutor, estamos a combater a pobreza, não é verdade?

* Venenos de deus, remédios do diabo – Mia Couto – Companhia das Letras

Renewing a tattoo

•19/01/2011 • Deixe um comentário

*By SHONNA MILLIKEN HUMPHREY, The New York Times… It’s exactly like that… Very good article.

“SINCE tattoo shops were illegal in South Carolina, where I was living at the time, I drove to Savannah, Ga., to get my first ink. I was 22, drunk on Jack Daniels, and I chose the image from a display at the shop based on what I could afford. Thirty dollars bought me a tiny black flower. Brash and audacious, I lifted my skirt and hopped onto the table.

I can’t remember the name of the boy who offered to hold my hand, but he was the baby of the group, each of them smooth-faced, pretty and vacuous — all swagger and ridiculously transparent. It was almost embarrassing to be with them. Almost, because I knew that unlike my tattoo, they were temporary.

“Wow” and “Cool,” each of them said upon seeing it.

Conventional wisdom suggested I’d regret every aspect of the decision because tattoos are permanent, and mine was the most permanent thing in my immediate life. Stability felt like cement to me then, and not long after I got the tattoo I bought a little truck and vowed never to own more than I could pack in its bed. Because I craved motion, I structured my life as a transient.”

Continue reading in http://www.nytimes.com/2011/01/16/fashion/16Modern.html?_r=1&ref=modernlove

Venenos de deus, remédios do diabo*

•17/01/2011 • Deixe um comentário

- Tens medo de fazer amor comigo?
- Tenho – respondeu ele.
- Por eu ser preta?
- Tu não és preta.
- Aqui, sou.
- Não, não é por seres preta que eu tenho medo.
- Tens medo que eu esteja doente…
- Sei prevenir-me.
- É porquê, então?
- Tenho medo de não regressar. Não regressar de ti.

* Venenos de deus, remédios do diabo – Mia Couto – Companhia das Letras

 
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