Novo blog

•25/04/2017 • Deixe um comentário

Nem tão novo assim, mas decidi postar agora apenas no blog https://lucianascimento.wordpress.com/. Tem umas coisinhas novas já por lá.

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Em dois tempos

•25/07/2011 • 7 Comentários

Grávida. Logo ela, que nunca quis ter filhos. Não conseguia sequer se imaginar com aquele barrigão, aquele corpo inchado, aquelas dores, as náuseas, as noites sem dormir. Até imaginava, na verdade, mas nada do que via lhe parecia bom. Pegou um copo. Encheu de vodka. Precisava se acalmar. Sentiu calor, raiva, jogou o copo contra a parede.

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Segurava o bebê com apenas uma das mãos, ele parecia leve naquele dia. O sol estava alto, já devia ser mais de meio dia. Sentia o cheiro do suor tomando conta de seu corpo, mas não encontrava a casa dele. Pelo menos o bebê não chorava, pensou. Sentia o nariz e os olhos arderem, pela terra que levantava ao andar. Passou o braço pelo rosto, na tentativa inútil de limpar as gotas de suor que escorriam.

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Pensou nos remédios. Nos chás. Preferia qualquer coisa a ter que apelar pra faca. Ela nem sabia direito como seria isso. Faca? Será que eles usam algo que corta? Mas, também, era melhor não saber. Pra quê? Só pra ter que pensar ainda mais? Saiu de casa decidida. Comprou o remédio, uma garrafa de água e um chocolate. Se tudo desse certo, dormiria tranquila depois. Não esperou chegar em casa para engolir o comprimido. Num gole, tudo estava feito – ou, melhor, desfeito. Abriu o pacote do chocolate enquanto caminhava. Faltavam três quarteirões. Sentia o vento desarrumar seu cabelo. Olhou para a barriga e deixou o vento bater. Assim seria melhor. Guardou o último quadradinho do doce para depois. Sempre sentia vontade de comer algo à noite.

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O suor continuava incomodando, mas caminhou sem parar. Foi a tarde toda, com o bebê no colo. Ele não quis mamar, não chorou, não reclamou de nada. À noite, ao ver o pôr do sol, ela decidiu voltar pra casa. Andou até se lembrar do caminho, e chegou lá com os pés latejando. O cabelo estava grudado na testa, sentia calor. Girou a chave na fechadura, mas a porta não abriu. Tentou de novo. Mas não era ali.

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Não era exatamente uma cólica que ela sentia, era algo diferente. Só não conseguia se levantar da cama. Se retorceu até onde sua coluna foi capaz de dobrar e ficou ali sozinha, sabendo que não duraria muito. Já sentia o sangue escorrendo, mas não conseguia levantar a cabeça para ver. Bem, pelo menos não iria ver nada. A dor apertava o estômago, parecia subir pro peito, um refluxo amargo. Suava frio, fechou os olhos. Quando os abriu, viu o relógio bater dez horas. Era de manhã. Tinha dormido. Viu o sangue e se levantou. Era dia de trocar a roupa de cama.

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Sentou-se na calçada, para descansar. Onde estaria ele? Numa hora dessas ele já havia saído do trabalho e passaria por aquela mesma calçada. Que espera longa. Não aguentava mais segurar o bebê e pediu ajuda pra mulher que estava a seu lado, também sentada. Lembrava dela de algum lugar. A outra, virando-se para o lado, recusou-se a segurar o bebê. Jogou-o no chão. Quando é que você vai perceber que essa bosta aqui é só uma boneca velha? Ela mal ouviu o que a outra disse, e correu para pegar seu bebê do chão. Ele não chorou, nem reclamou de nada, nem quis mamar. Ela saiu andando e, de longe, xingou aquela vaca. Foi dormir do outro lado da rua.

Vários

•25/07/2011 • Deixe um comentário

Naquela noite, ele não dormiu. Acendeu o cigarro e tentou desenhar o rosto dela na fumaça. No primeiro esboço, sobrou uma lágrima. No segundo, não conseguiu definir a linha dos lábios dela. No terceiro, esqueceu como era seu olhar. Aproximou o cigarro da pele. Queria alguma lembrança que o tempo não apagasse. E deixou queimar.

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Abriu a carteira e olhou a foto envelhecida. Com cuidado, tirou-a do plástico e apertou-a junto ao peito por instantes. Colocou-a de volta no lugar e, sem perder mais tempo, levantou a pistola que escondia debaixo do moletom. Obrigou o segurança a fechar a porta atrás dele. Ele não queria dinheiro, só dignidade. E, para isso, precisava conseguir o pão pro jantar.

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Acordou decidida a escrever um conto. Pensou primeiro no assunto. Sobre o que escreveria? Tentou imaginar um belo romance, um crime passional, uma cidade inventada. Mas as ideias passavam longe. Foi até a padaria. Quem sabe um bom café da manhã ajuda? Não ajudou. Depois foi ao parque. Nada como o som dos pássaros para estimular a imaginação. Mas nenhum pássaro apareceu. Então voltou pra casa e se sentou na frente do computador. Desse jeito alguma coisa ia sair. Mas não saiu. Cansada de pensar em vão, foi dormir. Dormiu decidida a acordar e escrever um conto.

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Se conheceram por acaso. Ele, saindo do táxi. Ela, tentando não tropeçar na calçada esburacada. Ele olhou sorrindo. Ela, com pressa, levantou as sobrancelhas com ar de desdém. Ele caminhou, olhando para trás. Ela correu para dentro do prédio e pegou o elevador. Ele, ainda hoje, pensa naquele encontro sem palavras. Ela nunca chegou atrasada a uma reunião.

Rir junto

•07/02/2011 • Deixe um comentário

*Mais do Mia Couto… Venenos de Deus, remédios do diabo

“Rir junto é melhor que falar a mesma língua. Ou talvez o riso seja uma língua anterior que fomos perdendo à medida que o mundo foi deixando de ser nosso.”

Combate à pobreza

•24/01/2011 • Deixe um comentário

– Quero um remédio, Doutor.
– Um remédio? Pode ser mais específico?
Não era, como pensou o clínico, um afrodisíaco. Solicitava um produto para a eliminação radical da transpiração. Não um desodorizante: um anulador definitivo de suores. Ele queria-se desglandular.
– O suor é um defeito dos pobres. E nós, meu caro Doutor, estamos a combater a pobreza, não é verdade?

* Venenos de deus, remédios do diabo – Mia Couto – Companhia das Letras

Venenos de deus, remédios do diabo*

•17/01/2011 • Deixe um comentário

– Tens medo de fazer amor comigo?
– Tenho – respondeu ele.
– Por eu ser preta?
– Tu não és preta.
– Aqui, sou.
– Não, não é por seres preta que eu tenho medo.
– Tens medo que eu esteja doente…
– Sei prevenir-me.
– É porquê, então?
– Tenho medo de não regressar. Não regressar de ti.

* Venenos de deus, remédios do diabo – Mia Couto – Companhia das Letras

Society

•09/04/2010 • 1 Comentário

John left the probation officer with a smile. It’ll be the last time. He could run fast and live as an absconding person, but he hasn’t strength anymore. He stopped in front of the office door for a second and put his knife out of his jeans. The sun was bright and the metal shone in his hands. Fast, it was in his heart. Behind him, people started to shout. Until the end, this was the only way people could talk to him: shouting.

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When she was a child, her mother said “the guys pull your hair because they like you and don’t know how to show that”. She grew up, married and her husband usually hits her. She thinks that she is loved.