Sobre caixas e separações

Um dia, minha tia avó deu figo para o nosso canário comer. O Tico era guloso, muito, e comeu tudo. Como minha mãe costumava botar alface (ou alguma verdura assim) para ele, minha tia achou que era hora de variar a alimentação. Ele chegou até a bicar a casca e, claro, não conseguiu digerir nem um tantinho de tudo aquilo. Foi um dia muito triste. Eu sabia que ele ia morrer…

O Tico chegou na nossa casa meio por acaso. Eu era criança e queria muito um cachorro. Mas morávamos num apartamento e eu ainda não tinha convencido meus pais de que um cachorro seria legal. Aí veio o Tico. Ele era muito fofo: assobiava só quando a gente aparecia e conseguia avisar quando via algo de errado. O varal tava meio torto? Ele assobiava. A máquina de lavar parou de funcionar sozinha? Ele assobiava.

Naquele dia até demos um remedinho pra ele, mas todos já sabíamos que a separação estava ali, iminente, não teria como fugir dela. Chorei bastante. E agora, pensando em escrever sobre separações, essa foi a lembrança que me veio à mente: da primeira separação de verdade que vivi.

*****

Esta semana estava conversando com um amigo sobre relacionamentos e separações. “Se eu não consigo nem jogar fora as caixas dos aparelhos que compro…”, ele disse. Como encarar separações do que é valioso, então? Do que vale a pena? De quem vale (ou valeu) a pena?

Eu nunca soube me despedir. Choro sempre que um amigo vai pra longe, ou quando eu volto pra longe. Já devia ter me acostumado, mas essa é uma caixinha difícil de deixar para trás. Sei que às vezes é só isso que podemos fazer: somos obrigados a tomar decisões e nos separar de alguma parte importante da vida.

Mas é assim que a vida acontece, meio por acaso, meio por obrigação. Meio por acaso as separações acontecem – o difícil é aceitar que elas já ocorreram. O bom é saber que meio por acaso a gente também pode descobrir os lugares mais lindos, as pessoas mais interessantes, as vontades que sempre estiveram lá.

Na minha próxima caixinha estarão minha casa e meu trabalho. Se a troca for justa, posso esperar muita coisa boa da caixinha que vai aparecer lá na frente.

~ por Lúcia Nascimento em 27/06/2009.

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