Revival

Cachorro faz au-au. Gato faz miau. E rato faz um barulho difícil de explicar em onomatopeias, mas inconfundível para quem já ouviu esse som alguma vez na vida. Pois é, sou daquelas pessoas sortudas que já ouviu – e viu – ratos algumas vezes na vida.

Quem me conhece há pelo menos dois anos com certeza lembra das minhas experiências com ratos em Moçambique (se você é dos amigos desnaturados que esqueceram essa história, confira ao final deste post).

Pois eis que hoje, em NYC, essas criaturinhas horrendas voltaram a me marcar o dia. Voltei cedo para casa – o final de semana foi corrido (balada a cada meia hora, hehe) e eu precisava dormir à tarde. Eis que, quando estou almoçando, começo a ouvir um barulhinho estranho vindo de trás do armário. É só o cano fazendo barulho, tento me consolar. Ao fundo, meu cérebro grita: é um rato! É um rato!

Mas, enfim, sou meio neurótica e sempre desconfio de mim mesma. Por isso, fui dormir achando que o barulho devia, mesmo, vir dos canos ou do apartamento do vizinho. Acordei depois de umas duas horas e, aí, comecei a perceber que, por mais neurótica que eu fosse, eu não conseguiria fazer com que um cano fizesse barulho apenas depois de eu também fazer um barulho.

Pois era isso que estava ocorrendo. Eu tossi, e aí ouvi o grunhido. Aí soltei uma tosse forçada, e o barulho veio de novo após a tosse. Um cano não consegue fazer esse tipo de coisa. Era um animal que estava ali atrás do armário mesmo. Não era um cavalo, não era um cachorro, não era um avião. Só podia ser um rato.

Claro que eu não ia afastar o móvel para ter certeza disso, nem ia mexer por ali para que o animal se movesse. Fiquei quietinha na minha cama, esperando minha roommate chegar. Aí, quando perguntei sobre o histórico de ratos no prédio, tive certeza de que eu conseguia, sim, reconhecer o barulho de um rato – e não precisava mais duvidar de mim mesma.

Enfim, o vizinho de baixo foi chamado, veio ajudar e pegou o rato – que estava preso na ratoeira. Agora, claro, eu fico ouvindo barulhos por tudo quanto é lado. Mas, dessa vez, o medo não foi tão grande quanto em Moçambique. Não sei se porque os ratos que aparecem aqui são aqueles menorzinhos ou se porque já estou vacinada contra esse mal. Só espero que esse revival não ocorra com frequência…

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Rato em Moçambique! Não lembra da história? Leia agora o texto que escrevi naquele exato dia!

Segunda, 7 de maio de 2007

Ouço um barulho ao pé da minha cama. Felizmente, acordei a tempo (às 5h da manhã! O que a necessidade nos apronta…) e peguei o vôo de volta a Maputo. Agora, durmo outra vez na casa de Eva (já é madrugada de terça). Levanto as orelhas, tento apurar o som. É som de ratos, mas não deve ser ao pé da minha cama. Devem estar todos no telhado. Afinal, de lá também vem o barulho. Viro meu corpo de lado e volto a dormir.

Mas o ser que está conosco é atrapalhado e, numa das roeduras no quarto, sai correndo e bate no pé da cama. Acordamos eu e Eva. Sim, eu já sabia, é um rato. É possível ouvir suas patinhas percorrendo o caminho do quarto à sala. Penso que não devia ter falado anteriormente que as coisas sempre podem piorar. Murphy. Não pensei que chegaria a ficar tão ruim. E pior do que isto, então, o que poderia ser? Prefiro nem imaginar. Estou morrendo de medo.

Eva se levanta e vai até a sala acender as luzes, à procura da ratazana. As luzes não se acendem. Tento ligar as do quarto, e elas também não se acendem. “Dei dinheiro para a empregada comprar luz semana passada. Não sei o que está a acontecer”, reclama Eva. Pela falta de possibilidades, voltamos a nos deitar. Eva ainda reclama algumas vezes da falta de luz, pensando no que deve ter sido feito do dinheiro que foi dado para a compra de energia. Eu penso no rato. Pois é, sempre pode ficar pior.

Com um rato passeando insistentemente entre o quarto e a sala vai ser difícil dormir. Uma vez, há uns 12, 13 anos, apareceu um ratinho no apartamento da minha avó. Colocaram ratoeiras por toda a casa e ele mordeu a isca em um domingo, quando estávamos lá. Todos (acho que com exceção da minha mãe), menos eu, se levantaram correndo para ver o bichano, na cozinha. Continuei sentada, na sala, há bons metros de distância. Se não queria encontrá-lo vivo, por que agora vê-lo morto? Agora, não o vejo, mas sei que ele está ali. Muito, mas muito mais perto do que nessa experiência da infância. Acho que nem do Mickey, alguma vez, fiquei tão próxima.

Passo repelente. Muito. Minhas armas são fracas. E se o repelente tiver um cheiro que agrade o rato e ele resolve subir na minha cama? Um pernilongo compete com o rato e resolvo me proteger, pelo menos, daquilo que ainda é possível se proteger. Coloco o lençol até o pescoço. Por vezes, cubro também a cara. Mas não durmo. Meu único movimento é um pequeno mexer de orelhas, que tentam acompanhar os movimentos do bicho. Pronta para pular dali caso o barulho se aproxime demais. Eva tenta me acalmar. “Dorme, Lú”. No mínimo, ela finge não ter medo. “Que se há de fazer?”.

São já quatro da manhã e ainda não voltei a dormir. Para não perder de todo o tempo e me concentrar em outra coisa, tento planejar meu TCC. Faço um esquema mental de sua divisão, do que pode ser dito no prefácio… qual pode ser seu título? Mas, de fato, nada muito interessante é produzido. Acordei, como já disse, às 5h da manhã, para não perder o vôo a Maputo. Não dormi durante o dia e não mais do que três horas depois de ter deitado, o rato apareceu. Nem que eu me esforçasse muito conseguiria ter uma idéia interessante agora. Me vêm à idéia títulos como “Mulheres à beira de um ataque de nervos” ou “Mulheres desesperadas”. Nada que me garanta uma nota mínima no trabalho, imagino.

Mas dizia que são quatro da manhã e ainda não consegui dormir. Sei o horário porque ouvimos um barulho grande na sala e vamos ver o que é. Eu, na verdade, fico no quarto, olhando de rabo de olho pela fresta entre esse cômodo e a sala. Eva, que foi até lá e não descobriu nada no escuro, diz que são quatro horas. O rato deve ter derrubado algum objeto. Durante esse tempo, os barulhos se revezavam entre as patinhas percorrendo a casa e o roer de algum objeto, no quarto mesmo. Ela acordará em duas horas, para ir ao trabalho. Penso, solitária, são só mais duas horas. Agüenta, Lúcia! Acabo pegando no sono. A cada poucos minutos, entretanto, acordo novamente com um barulho novo.

Graças a tudo que pode haver de sagrado, amanhece. Eva vai tomar banho na casa de banho ao lado de fora da casa. Estou sozinha com o rato. Durante a noite, pensei em diversas formas que me ajudariam a matá-lo. Entre um título de TCC e outro, idéias para o assassinato. Enumero minhas armas.

A primeira tentativa seria pegar o Baygon e jogar em sua cara em grande quantidade. Mas não sem antes proteger meu rosto com um travesseiro. Ratos pulam para morder, não? Meus conhecimentos sobre a espécie são limitados. Não gosto deles por não gostar e ponto.
Penso que pode ser mais interessante ir jogando água pela casa, no sentido “parte mais interior” até a porta. Deixar água até uma altura que lhe obrigue a nadar. Rato nada? Dessa forma, ele não poderá pular – ou se afogará – quando eu tentar matá-lo. Não menos interessante seria a terceira tentativa: com meu mosquiteiro, prenderia o rato em uma armadilha. Quando ele estivesse ali, roendo alguma coisa que não sabia o que era, jogaria o mosquiteiro. Ele ficaria preso na rede e, dessa forma, poderia pensar nas maneiras mais desumanas de lhe tirar a vida. Imagino ele sendo jogado pela porta afora, batendo na porta do vizinho, que estaria aberta. Em seguida, se confrontando contra a parede e rolando escada abaixo. Quase uma versão Mickey Mouse de “Matrix”.

Eva volta do banho e tomo coragem para sair da cama. Me troco em alguns segundos. Não ficaria sozinha na casa, com um rato, por absolutamente nada neste mundo. Nenhuma chantagem seria forte o suficiente para me fazer ficar ali. Pego minha bolsa: lá estão minha carteira, minha câmera, meu arquivo de textos. Mas lá não está mais a minha bolsa inteira. O rato roeu a roupa do rei de Roma. Na verdade, roeu a bolsa da Lúcia, que não é rainha de nada.

São sete da manhã. Dormi não mais do que quatro horas e saio pela ruas de Maputo. Se a intenção era me testar, acho que fui aprovada com honra ao mérito. Pode parar com a brincadeira, não?

~ por Lúcia Nascimento em 15/09/2009.

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