Em dois tempos

Grávida. Logo ela, que nunca quis ter filhos. Não conseguia sequer se imaginar com aquele barrigão, aquele corpo inchado, aquelas dores, as náuseas, as noites sem dormir. Até imaginava, na verdade, mas nada do que via lhe parecia bom. Pegou um copo. Encheu de vodka. Precisava se acalmar. Sentiu calor, raiva, jogou o copo contra a parede.

===========

Segurava o bebê com apenas uma das mãos, ele parecia leve naquele dia. O sol estava alto, já devia ser mais de meio dia. Sentia o cheiro do suor tomando conta de seu corpo, mas não encontrava a casa dele. Pelo menos o bebê não chorava, pensou. Sentia o nariz e os olhos arderem, pela terra que levantava ao andar. Passou o braço pelo rosto, na tentativa inútil de limpar as gotas de suor que escorriam.

===========

Pensou nos remédios. Nos chás. Preferia qualquer coisa a ter que apelar pra faca. Ela nem sabia direito como seria isso. Faca? Será que eles usam algo que corta? Mas, também, era melhor não saber. Pra quê? Só pra ter que pensar ainda mais? Saiu de casa decidida. Comprou o remédio, uma garrafa de água e um chocolate. Se tudo desse certo, dormiria tranquila depois. Não esperou chegar em casa para engolir o comprimido. Num gole, tudo estava feito – ou, melhor, desfeito. Abriu o pacote do chocolate enquanto caminhava. Faltavam três quarteirões. Sentia o vento desarrumar seu cabelo. Olhou para a barriga e deixou o vento bater. Assim seria melhor. Guardou o último quadradinho do doce para depois. Sempre sentia vontade de comer algo à noite.

===========

O suor continuava incomodando, mas caminhou sem parar. Foi a tarde toda, com o bebê no colo. Ele não quis mamar, não chorou, não reclamou de nada. À noite, ao ver o pôr do sol, ela decidiu voltar pra casa. Andou até se lembrar do caminho, e chegou lá com os pés latejando. O cabelo estava grudado na testa, sentia calor. Girou a chave na fechadura, mas a porta não abriu. Tentou de novo. Mas não era ali.

===========

Não era exatamente uma cólica que ela sentia, era algo diferente. Só não conseguia se levantar da cama. Se retorceu até onde sua coluna foi capaz de dobrar e ficou ali sozinha, sabendo que não duraria muito. Já sentia o sangue escorrendo, mas não conseguia levantar a cabeça para ver. Bem, pelo menos não iria ver nada. A dor apertava o estômago, parecia subir pro peito, um refluxo amargo. Suava frio, fechou os olhos. Quando os abriu, viu o relógio bater dez horas. Era de manhã. Tinha dormido. Viu o sangue e se levantou. Era dia de trocar a roupa de cama.

===========

Sentou-se na calçada, para descansar. Onde estaria ele? Numa hora dessas ele já havia saído do trabalho e passaria por aquela mesma calçada. Que espera longa. Não aguentava mais segurar o bebê e pediu ajuda pra mulher que estava a seu lado, também sentada. Lembrava dela de algum lugar. A outra, virando-se para o lado, recusou-se a segurar o bebê. Jogou-o no chão. Quando é que você vai perceber que essa bosta aqui é só uma boneca velha? Ela mal ouviu o que a outra disse, e correu para pegar seu bebê do chão. Ele não chorou, nem reclamou de nada, nem quis mamar. Ela saiu andando e, de longe, xingou aquela vaca. Foi dormir do outro lado da rua.

~ por Lúcia Nascimento em 25/07/2011.

7 Respostas to “Em dois tempos”

  1. Nossa, muito bom, Lu! Forte, mas lindo lindo.

    • Sério que você gostou? Ele foi uma tentativa de voltar a escrever, depois desse período de branco/vazio/loucura… hehe

  2. Uou! Muito bom o texto, Lúcia. Uma pedrada!

  3. sem palavras… rsrs

  4. WOW! Amazing!

  5. Ah, que bom que vocês gostaram, meninas. =)

  6. Lu, põe o botão de Curtir do Facebook pra gente curtir e aparecer no nosso perfil!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: